Reflexões de Meio de Ano: o Natal, o “Ano Novo” e o Descompasso com a Natureza

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Neste vídeo/podcast, Eurico Vianna reflete sobre como, de acordo com os padrões naturais, no Hemisfério Sul estaríamos, na verdade, no meio do ano. Observando os fluxos energéticos naturais, percebemos o quanto estamos desconectados da natureza. Para quem vive no campo, Eurico explica que essa desconexão traz prejuízos exponenciais nas camadas ecológica, social e econômica.

Reflexões de meio de ano: o Natal e o descompasso com a natureza. 

Não estamos no final do ano. Acabamos de passar pelo solstício de verão, o dia do ano com mais horas de sol e a noite mais curta. Para quem está no campo, o calor exige que a maior parte do trabalho seja feita bem cedo e depois das quatro da tarde. O crescimento acelerado de todas as plantas, a quantidade de pássaros, insetos e animais… tudo grita anunciando um pico de atividade. Nas cidades o cenário é outro, o feriado é de fim de ano e as ruas, as TVs e redes sociais sequestram o significado do Natal para fazer com que todos consumam ainda mais produtos e serviços, na sua maioria fúteis. 

No hemisfério norte, as campanhas de marketing foram pensadas para ‘aquecer’ o comércio em uma época de recolhimento e introspecção. Lá o Natal acontece logo depois do solstício de inverno; o dia com menos luz solar e com a noite mais longa do ano. Muitos historiadores e pesquisadores inclusive dizem que a religião católica teria escolhido celebrar o Natal nessa época do ano para se apropriar das celebrações pagãs do solstício de inverno. Por muitos séculos pagãos e adeptos de outras religiões celebram nesta data o renascer do ciclos naturais uma vez que a noite mais longa já passou e o sol voltará a brilhar mais, trazendo luz, calor e a possibilidade de cultivo. 

Ao sul da linha do equador, no entanto, essas estratégias de marketing galgaram um resultado exponencial. Nas cidades o frenesi de Natal aumenta a desconexão com os padrões naturais, na mesma proporção em que aproveita os dias mais longos e quentes para promover o consumo desenfreado. Os presentes não são mais sobre a dádiva, não fortalecem as relações entre e com as pessoas das quais dependemos. Também já não estão mais ligados com a construção da autonomia sobre nossas necessidades mais básicas. Nas cidades, ainda mais do que no campo, sofremos ‘da doença do caráter moderno, a especialização’, como aponta Wendell Berry (1977). As pessoas trocam tempo de vida por dinheiro que depois usam para presentear umas às outras. Alguns dão dinheiro para a paróquia, para causas sociais ou ambientais, mas dar não é fazer, como também aponta Berry. E assim, esse presentear há muito já deixou de ser um cuidar. 

No campo essa situação é ainda mais grave; as pessoas são moídas entre a cultura do colonizador que diz que é fim de ano (porque lá é) e a natureza que alcança seu pico máximo de fluxo solar. O descompasso com a realidade causa prejuízos que também são exponenciais. 

A primeira perda é ecológica, no sentido de que nos afasta ainda mais dos padrões naturais. Assim como o excesso de luzes nas cidades e as telas azuis que nos roubam a saúde porque quebram nosso ciclo circadiano, nossos negócios rurais também adoecem porque precisam funcionar economicamente desconectados do fluxo solar energético e do movimento planetário. No solstício de verão a maioria dos sistemas de produção está chegando ao seu pico, mas geralmente é no equinócio de outono, quando o dia e a noite duram exatamente o mesmo tempo, que começamos a colher a abundância trazida pelo sol do verão. 

O segundo prejuízo é econômico e deriva da desconexão ecológica. Sempre que operamos nossos sistemas de produção para que tenham um pico de vendas fora do período naturalmente mais abundante, teremos mais gastos com insumos e trabalho para compensar esse descompasso. Durante o pico de produtividade, momento em que precisamos estar disponíveis para a manutenção dos sistemas, para o controle da gestão e da contabilidade, somos levados a soltar as rédeas para as festas de fim de ano. E para piorar, as férias, as festividades e o ‘clima’ cultural informa que tudo só voltará ao normal depois do carnaval. Assim perdemos o foco e desperdiçamos energia por quase um quarto do ano entre o solstício de verão e o equinócio de outono.

O terceiro prejuízo é na dimensão pessoal. Nessa dimensão, muitas vezes as perdas levam anos para serem percebidas, mas quando se tornam evidentes cobram caríssimo porque se manifestam como falência afetiva ruindo relacionamentos… entre esposas e maridos, mães e filhos, pais e filhos e entre os membros da família que vivem no campo e os que vivem na cidade. Enquanto uma pessoa que compõe o casal funciona espremida entre o tempo da cidade e a realidade do campo, a outra ficou anos sem atenção em uma data considerada importante. Enquanto as crianças estão de férias e em uma idade importante para construir os laços afetivos, os pais estão trabalhando em desarmonia com os padrões naturais para atender as demandas de clientes urbanos. Além das famílias, essa falência afetiva destrói a sucessão das propriedades no campo porque raramente filhos e filhas que cresceram com pouca atenção dos pais e testemunhando a falta de qualidade de vida, escolhem as mesmas ocupações.

Somos mamíferos primatas, animais da megafauna que só vivem bem quando o ecossistema está no ápice da sua biocapacidade. Nossa biologia está em sintonia profunda com toda a Vida, desde a microbiota do solo, o pulsar das plantas e animais no território onde vivemos até o movimento da Terra que define os padrões climáticos. Funcionar em desarmonia com a realidade biofísica não causa “só” problemas de saúde e prejuízos econômicos, nos torna ao mesmo tempo protagonistas e vítimas da degradação. 

Como a colonização Católica se entranhou em nossa cultura, podemos seguir honrando o Natal no hemisfério sul na mesma data em que aconteceu ao norte da linha do equador. Mas como pessoas informadas e limitadas pela realidade biofísica, o fim do nosso ano deveria ser em Junho, com o solstício de inverno. Nosso momento de introspecção deveria estar relacionado com o inverno, nos estados mais ao sul, e com a seca nos outros estados; o momento do ano no qual a natureza também se recolhe ou está mais devagar. A rotina dos negócios que se viabilizam melhorando a saúde dos territórios onde se instalam também devem estar sincronizados com esse pulsar natural. Assim como o desalinho com os padrões naturais trouxe prejuízos exponenciais, realinhar nossas vidas com o fluxo solar energético e o movimento do planeta traz um potencial exponencial de cura para nossa saúde, para nossa relação de intimidade com o território e para a viabilidade dos nossos empreendimentos. 

Compartilho essas reflexões de meio de ano com a intenção de potencializar os resultados positivos de nossas interações. Nos últimos meses milhares de pessoas assistiram ou escutaram o Podcast Impacto Positivo. Centenas estão apoiando a publicação do meu livro O Meu Caderno de (ida para o) Campo. Outras tantas escolheram estudar sobre planejamento e gestão rural comigo. Um grupo menor, no entanto, me deixou muito agradecido por confiar no meu trabalho para estruturar não só suas propriedades, mas também seus empreendimentos e visão de futuro. Ao longo do ano temos encontrado as perguntas específicas que podem levar cada um desses empreendimentos ao próximo estágio de sucessão, construindo sucesso econômico, ecológico e social. 

Esse ano também gravei conversas e aulas importantes com pessoas e profissionais que admiro muito, entre elas o Allan Savory, o David Holmgren, o Greg Judy, o Johann Zietsman e o Joel Salatin. Também comecei a Confraria Agrária, um encontro semanal onde trago autores, reflexões e abordagens para apoiar o sucesso integral das pessoas que vivem (ou querem viver) no campo. 

Você que estuda comigo, que escuta o podcast e assiste os vídeos faz parte da construção do meu sucesso profissional, da minha evolução como pessoa e construção de intimidade com o território. É por prezar a nossa relação e a sua confiança que sigo escolhendo me comunicar com sinceridade e que sigo escolhendo construir coerência ecológica em tudo que faço. 

Com mais 6 meses pela frente, até chegarmos ao final do ano natural, eu e minha equipe estamos refinando a comunicação da Impacto Positivo. Agora também vamos funcionar como editora, daremos mais atenção à mala direta (e aos emails que recebemos por ela) e fizemos um compromisso de não usar as Inteligências Artificiais em meus perfis nas redes sociais. Não quero produzir conteúdo, porque não quero ser consumido. Quero dialogar com as pessoas que acompanham meu trabalho. Além de alinhar nossas atividades com os padrões naturais para potencializar curas tão necessárias, queremos que a relação com você que é cliente, audiência ou leitor seja legítima e cada vez mais útil na construção de uma vida digna no campo. 

Faço votos que as minhas reflexões de meio de ano provoquem em você um alinhamento com a Vida que nos cerca! Fico muito grato com todos que contribuíram para que pudéssemos ter um impacto verdadeiramente positivo até esse solstício!

Abraços,
Eurico Vianna